Ética e política no âmbito da Filosofia Moderna


 

Tiago Eurico de Lacerda [1]

 A primeira atividade que nos exige a modernidade é uma desconstrução do mundo em que os aspectos religiosos, eternos e imutáveis são deixados de lado, mas ao mesmo tempo são parte do processo para se entender este momento da história. Não se pode falar de modernidade apenas com os predicativos de algo transitório, fugidio ou contingente. Ambas as realidades, por mais que contraditórias, se complementam para entendermos a modernidade. Segundo Harvey, “ser moderno é encontrar-se num ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, transformação de si e do mundo – e ao mesmo tempo, que ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos” (2009, p. 21). A modernidade une a humanidade, mas esta ainda precisa aprender a coexistir e a conviver com as suas diferenças.

As premissas de Weber sobre o desencanto que a secularização proporcionou ao encontrar um mundo que ainda acreditava na concretização de um projeto divino ainda ecoam entre nós. Touraine nos adverte que para falar de modernidade é preciso que “a atividade intelectual seja protegida de propagandas políticas ou de crenças religiosas, que a impersonalidade das leis proteja contra nepotismo, o clientelismo e a corrupção” (1994, p. 18), ou seja, que a própria administração, seja ela pública ou privada, não seja instrumento de um poder pessoal. Precisamos compreender que a ideia de modernidade está relacionada à racionalização.

Habermas em suas obras ressalta aquilo que chamamos de moderno como um projeto de um esforço intelectual (todavia dos pensadores iluministas) para desenvolver uma ciência objetiva que proporcionasse uma emancipação do homem. Para que ele se libertasse da escassez, da necessidade, e das  arbitrariedades das calamidades naturais, ao mesmo tempo em que também se libertaria de toda a irracionalidade do mito, das superstições, da religião. É um momento profícuo para revelar as qualidades talvez tidas como obscuras do homem, mas também universais, eternas da própria humanidade. No mesmo compasso tal busca por uma emancipação do homem pode se tornar numa linguagem própria da Dialética do Esclarecimento, um sistema de opressão universal em nome da libertação humana, uma ilusão como nos adverte Adorno e Horkheimer ao refletir que a lógica que percebemos sob a racionalidade iluminista não passa de uma lógica de dominação e opressão.

Corroborando com nossa argumentação, Viesenteiner afirma que o século XIX “é marcado pela falência generalizada das principais narrativas que sustentam a cultura ocidental” (2010, p. 89). Pois aquilo que presenciamos como uma tentativa de unidade da razão como domínio tanto sobre a vida e o mundo está em crise, ou seja, a razão não é capaz de responder às questões basilares da vida humana. A questão aqui é nada mais que o panorama de uma crise ética, pois é notório o esvaziamento de significados das perspectivas e valorações morais que se cultuaram por séculos. E para um problema ético impregnado na cultura, precisamos de um “médico da cultura”, ou seja, de um diagnóstico das condições culturais do século XIX. Nietzsche, também conhecido junto com Marx e Freud como filósofos da suspeita, elabora a leitura, o diagnóstico dessa crise da ética.

Grosso modo, tal diagnóstico pode ser considerado a partir do conceito de niilismo, que segundo Viesenteiner é “a mais indesejada visita que a cultura ocidental recebe”, e ainda acrescenta que sob o ponto de vista do esvaziamento da vida e dos valores, é “o mais sinistro de todos os hóspedes” (2010, p. 91). A vida sem sentido se abre às inúmeras possibilidades de criação, ao mesmo tempo que também passam a ser criações de ilusões. Tudo se torna artificial, mercadológico. Se compra a felicidade com as ilusões do mercado e a compulsão de domínio do homem não para por aí. Ele quer dominar cada vez mais para se sentir pertencente, seja a vontade de poder aos moldes nietzschianos ou a própria vontade da técnica numa linguagem Jonasiana.

Se o homem agir conforme sua vontade sem sequer olhar as consequências das suas ações não teremos um mundo para convivermos ou coexistirmos no futuro. A perspectiva ética tratada até aqui é quanto à responsabilidade não somente no âmbito interpessoal (ética deontológica kantiana), mas em relação à toda condição possível para se viver bem sobre a terra hoje e no futuro. Segundo Marcondes, “Weber formula sua célebre distinção entre ética da convicção (Gesinnungsethik) e uma ética da responsabilidade (VerantwortungsetfiiK)” e vai privilegiar esta última, pois Weber a considerava “mais crítica, preocupada com a prática e adequada à tomada de decisões no mundo político” (2009, p. 118). Enquanto isso, a ética da convicção tende a ser mais rígida e dogmática.

É preciso pensar a dimensão política, desde os gregos para entendermos como essa relação entre ética e política funciona hoje. Se antes, na Grécia antiga, a política pretendia ser um instrumento para o bem comum, agora, principalmente depois de Maquiavel, percebemos que a essência da política se encontra na disputa e manutenção do poder. Mas como encontrar na sociedade hodierna uma política que tenha nascido da ética e ao mesmo tempo aponte caminhos inspirados no eudaimonismo aristotélico?

A resposta para essa questão não é tão simples. Antes de mais nada para elaborarmos hoje uma discussão ética e política contextualizada e séria é preciso levar em consideração dois aspectos discutidos na obra, Ética: abordagens e perspectivas, organizada pelo professor Cesar Candiotto, que são: diversidade e pluralidade. Quando pensamos que existimos, primeira descoberta do método de Descartes, “eu sou um ser pensante”, precisamos também entender que há um outro que não eu, mas também existe. Daí já caminhamos para a concepção da diversidade, nós coexistimos com nossas diferenças. E depois dessa compreensão preciso admitir que esse outro além de existir e não ser eu, pensa de uma maneira distinta da minha, pluralidade.

Ao tentar padronizar a imagem humana, extinguir a diversidade de etnias e elaborar uma ditadura do pensamento é que vimos muitos povos serem exterminados. Presenciamos uma eugenia em detrimento de características “menos nobres” e muitos aplaudiram na época, ainda nos perguntamos: como? Mas hoje, com a polarização política inserida na cibercultura com todas as veiculações de Fake News fica fácil entender épocas sombrias em que à razão humana era creditada o poder de domínio. O cenário brasileiro das últimas eleições presidenciais para cá apresentou o próprio diagnostico nietzschiano do niilismo em que as pessoas perdidas de seus valores e dominadas pela ilusão aos moldes das ideias de Horkheimer, preferem o nada a querer algo.

Tal cenário foi percebido por uma política fundamentada numa ideologia que conseguiu fazer com que a classe trabalhadora percebesse que mesmo estando numa desgraça social imensurável, preferiram adotar os valores da classe dominante e votar em propostas que vão ao encontro da precarização do trabalho, único meio que as pessoas (trabalhadoras) possuem para subsistir e sentirem-se inseridas na sociedade. O candidato vencedor chegou a dizer: “escolham, ou trabalho ou direitos, ambos não é possível”. E mesmo assim ganhou as eleições. Será que podemos discutir uma ética que em algum momento tenha buscado uma Eudaimonia grega nos tempos atuais? A modernidade não trouxe apenas a desfragmentação do homem, mas o lançou no caos existencial. Por isso por pouco ou por nada, alguns se lançam às cegas em ideologias contraditórias com os valores do bem comum, mas ainda acreditam estarem fazendo o melhor para si e para o seu país.

Como considerações finais podemos afirmar que mesmo pensando a partir da modernidade é de fundamental importância, como muitos modernos o fazem, um olhar para as origens da política e buscar uma compreensão, seja no âmbito do saber teórico ou prático, para entendermos a atual realidade de nosso país e do mundo. Assim, será possível a partir de uma prática prudencial ou como os próprios gregos utilizavam o termo, phronesis, fazer um melhor discernimento ético de como poderemos guiar com sabedoria o homem nesses novos caminhos de uma ética e política que estão em constante transformações conceituais dentro da história.

[1] Currículo Lattes 

 REFERÊNCIAS


HARVEY, David. Condição Pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 18. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

TOURAINE, Alain. Crítica da modernidade. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1994.

VIESENTEINER, Jorge L. Nietzsche e o niilismo como diagnóstico da crise da ética. In.: CANDIOTTO, Cesar. Ética: abordagens e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2010.

MARCONDES, Danilo. Textos básicos de Ética: de Platão a Foucault. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

 

Para citar esse texto:

LACERDA, Tiago Eurico de. Ética e política no âmbito da Filosofia Moderna. Londrina, novembro de 2020. In.: Tiago Lacerda. Disponível em: http://www.tiagolacerda.com/2020/11/etica-e-politica-no-ambito-da-filosofia.html.

 

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem